"Não há mãe perfeita", afirma psicanalista Malvine Zalcberg | ANEP
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“Não há mãe perfeita”, afirma psicanalista Malvine Zalcberg

Em entrevista, belga naturalizada brasileira fala sobre descobrir-se mulher e a importância que a relação materna tem nessa experiência.

A delicadeza e a complexidade da relação desenvolvida entre mãe e filha sempre conquistaram uma atenção especial da psicanalista Malvine Zalcberg. Recentemente, a pesquisadora lançou De Menina a Mulher: Cenas de Edificação da Feminilidade no Cinema e na Psicanálise, em que aborda a construção da personalidade feminina a partir do relacionamento que temos com nossas mães.

O tema é recorrente na obra da belga naturalizada brasileira e já rendeu outras publicações, como A Relação Mãe e Filha (2003). Malvine conta que o interesse veio principalmente da época em que atuou como psicanalista no Serviço de Psiquiatria do Hospital da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Para ela, a experiência, somada aos atendimentos clínicos que realizava, foi imprescindível para constatar que, embora cada família tenha características singulares, muitos dos pares que os pais constituem com seus filhos – como os de pai-filho/filha ou os de mãe-filho/filha – apresentam aspectos específicos a esta relação.

– O vínculo que mais despertou meu interesse foi precisamente o que se estabelece entre mãe e filha. O que torna esta relação tão particular é que, de forma geral, há uma grande dependência mútua. Do que se trata nesta dependência mútua entre mãe e filha, é o que procurei analisar e compreender – explica.

Na obra De Menina a Mulher, a psicanalista compila uma série de breves ensaios em que usa enredos cinematográficos e apoia-se em personagens de filmes conhecidos para lançar luz sobre essa relação, trazendo a psicanálise para o debate. São obras como Cisne Negro (Darren Aronofsky), As Horas (Stephen Daldry) e Sonata de Outono (Ingmar Bergman), que nos permitem pensar nos fios sutis que ligam mãe e filha.

– A arte cinematográfica tem o poder de falar às nossas emoções. Ver em Sonata de Outono o desespero de Eva (Liv Ulmann) quando toca piano e espera ansiosamente a aprovação de sua mãe Charlotte (Ingrid Bergman), e sua decepção em, mais uma vez, não obtê-la, é impactante. A imagem da cena desperta uma emoção que dificilmente conseguiríamos obter pela descrição em palavras – afirma.

Em uma conversa, Malvine falou sobre descobrir-se mulher e a importância que a relação materna tem nessa experiência:

– Não se trata apenas da edificação da feminilidade da filha, como também da retomada da feminilidade da mãe. Mães e filhas encontram-se sempre em momentos diferentes deste percurso que marca suas vidas como mulheres, mas implicam reciprocamente nele. Neste sentido, muitas vezes a mãe precisa tanto, mas não necessariamente da mesma forma, da filha, como esta da mãe.

Por meio de filmes, você compila exemplos de mulheres que sofreram a vida toda por conta de uma relação problemática com a mãe.

Há filhas que tiveram a ventura de desenvolver uma relação harmoniosa com suas mães, mas é frequente haver sérias desavenças entre elas, apesar do grande amor que, em geral, as unem. (…) Mães e filhas encontram-se sempre em momentos diferentes do percurso que marca suas vidas como mulheres, mas se implicam reciprocamente nele. E neste sentido, muitas vezes a mãe precisa tanto – mas não necessariamente da mesma forma – da filha como esta da mãe. Nem sempre encontram as respostas que procuram, gerando conflitos entre elas.

Não há mãe perfeita. E a mulher nem deve procurar sê-lo. Mas bom senso e compreensão de suas próprias questões (como evitar envolver a filha em seus problemas) ajuda.

 

Quais são as características da passagem da fase de menina para a mulher?

Depende da forma como se dá o processo de aproximação e de afastamento em relação à mãe, tanto na infância quanto na adolescência. Como podemos encontrar “uma boa distância”, nem perto, nem longe demais? Não é fácil para nenhuma das duas abrir mão do prazer que a intimidade e a cumplicidade proporciona. Uma mãe pode desejar ter uma relação harmoniosa com a filha a todo custo porque teve uma relação muito ruim, desastrosa, com a própria mãe. Querer ter um relacionamento pacífico só pode ser bom. Mas, se a qualquer desavença a mãe fica abalada porque vê nisso uma ameaça ao seu sonho de relação também idealizada, pode acabar engessando esse relacionamento com a filha, em que a naturalidade não é admitida. Este tipo de relação de “cola” pode começar a sufocá-la. Como diz uma adolescente de 13 anos cada vez que sente a mãe querer que continuem coladas: “Menos, mãe!”.

Em postagens nas redes sociais, é possível encontrar relatos de mulheres que falam sobre uma relação abusiva com a mãe – controladoras, que infligem uma culpa constante. Esse tipo de comportamento tem a ver com uma dificuldade da mãe em entender a filha como um indivíduo?

A mãe deve prestar atenção para que a ascendência que exerce sobre a filha nos primeiros anos de infância não se torne excessiva e se prolongue pela vida, às vezes sem perceber. É um domínio que pode assumir diferentes formas, nem sempre ostensivas ou dramáticas, mas nem por isso menos danosas.

Para a mãe, como ser assertiva e fazer funcionar esse relacionamento?

A mãe deve entender como a vida da filha e a sua se entrelaçam. (…) A relação com a mãe é das mais importantes. Não há mãe perfeita. E a mulher nem deve procurar sê-lo. Mas bom senso e compreensão de suas próprias questões (como evitar envolver a filha em seus problemas) ajuda. Reconhecer erros e corrigi-los em vez de negá-los é proveitoso para o bom relacionamento. E, se não foi possível adotar essa posição no momento em que algo acontece, vale comentar e revisitar incompreensões e desacertos a qualquer momento. Às vezes, ter coragem de falar a respeito de um aspecto doloroso é algo que a filha esperou a vida toda a mãe resolver fazer. Não há idade para fazer isso bem, felizmente.

Fonte: Revista Donna

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