“Selfies e Redes Sociais estão promovendo uma sociedade narcísica” | ANEP
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“Selfies e Redes Sociais estão promovendo uma sociedade narcísica”

Marcelo Veras, psicanalista, diz que hoje em dia parece menos importante ir a Paris do que fazer selfie com a Torre Eiffel

Pesquisas elaboradas por universidades e instituições privadas mostram que jovens de 18 a 35 anos, os famosos millennials, estão cada vez mais solitários e menos inclinados a procurar parceiros sexuais. Em alguns países, o fenômeno já virou motivo de preocupação. Levantamentos do governo japonês indicam que o país perdeu um milhão de pessoas em cinco anos e, caso mantenha as tímidas taxas de natalidade, deve ter 30 milhões de habitantes a menos em 2050. Para Marcelo Veras, psicanalista e membro da Associação Mundial de Psicanálise, o grande número de jovens solitários é reflexo de pessoas cada vez mais próximas do celular e distantes umas das outras. “Existem vários trabalhos mostrando que a rede social nos separa das pessoas e do contato presencial, que é fundamental para a experiência humana. Isso é algo que vem acontecendo muito precocemente na vida dos indivíduos”, explicou Veras. Em entrevista a ÉPOCA, o psicanalista comenta sobre os problemas psicológicos gerados pelas redes sociais e explica como usá-las de uma forma menos prejudicial.

Uma pesquisa elaborada pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) constatou que a geração Z e os millennials convivem com altas taxas de solidão. O que está por trás desse fenômeno?

As cidades perderam a dimensão humana. Quando eu era criança, encontrava meus amigos na rua. Isso não existe mais. Então é claro que os jovens vão se encontrar nas redes sociais, porque elas viraram as ruas. Existe essa correlação. Por outro lado, existem trabalhos mostrando que, se a expectativa era fazer com que as pessoas se aproximassem por meio das redes sociais, o que se observa é o contrário. Existem vários trabalhos mostrando que a rede social no fundo nos separa das pessoas e do contato presencial, que é fundamental para a experiência humana. Isso é algo que vem acontecendo muito precocemente na vida dos indivíduos, como no caso de bebês que recebem um iPad ou um iPhone. Assim, eles começam a apreender a realidade tridimensional de forma virtual. Quando talvez fosse mais interessante para essas crianças brincarem de massinha para entender o corpo. Quando a gente avança um pouco mais, vai ver que esses jovens, já a partir dos 8 ou 9 anos, são exímios conhecedores de pornografia. Eles conhecem tudo sobre o sexo. No entanto, em vez de criar uma geração que sabe lidar melhor com a sexualidade, a gente criou uma geração de inibidos. Eles não sabem como brincar com a massinha que é o corpo do outro. Eles sabem muito de sexo virtual, mas no sexo real existe uma experiência de corpo, que é o que se tem perdido na dimensão virtual.

Quais podem ser as consequências desse aumento da solidão?

Elas são muitas. Primeiro que isso vem mascarado pela promessa de felicidade que as redes sociais despertam a partir do momento em que mobilizam nosso narcisismo. Por exemplo, todos nós postamos no Instagram nossas fotos mais bonitas, com filtro e sorrindo. Mas nós somos, na verdade, as 60 fotos que não postamos, aquelas com coentro no dente e com celulite aparecendo. Nós somos essas fotos que não postamos. Isso faz com que cada vez mais criemos uma geração dependente do narcisismo e de falsas promessas de felicidade. Isso traz um sofrimento porque nos torna cada vez mais reféns da aprovação dos outros para sermos felizes. Essa aceitação do outro acontecia no âmbito familiar, mas, hoje em dia, as redes sociais fazem com que a nossa segurança esteja na mão de desconhecidos. A gente fica refém de curtidas de pessoas de quem, na maioria das vezes, não sabemos nada a respeito.

Outra pesquisa, dessa vez conduzida por professores da Universidade da Pensilvânia, mostrou que as redes sociais aumentam as chances de uma pessoa desenvolver depressão e ansiedade. Por que isso acontece?

Comecemos pela ansiedade. Essa é uma doença do tempo. Ela nos torna pessoas incapazes de esperar. Quando a internet começou, demorava dois minutos para baixar uma imagem, porém achávamos isso espetacular. Hoje em dia, se o celular ou o computador demoram três segundos a mais, já começamos a reclamar. Isso mostra como nós estamos cada vez mais nos tornando destinados a uma urgência subjetiva. Existe algo na vida contemporânea que a gente chama de instante de ver, um momento para compreender e um momento de concluir. O que a gente percebe é que cada vez mais há um encurtamento no tempo de compreender. Quando a pessoa recebe uma mensagem ou uma matéria com desinformação no Facebook, ela já sai replicando, seja para curtir, seja para criticar. O que as redes sociais fazem é retirar esse tempo precioso da reflexão. Com relação à depressão, existe um trabalho que eu acho muito curioso. A pesquisa acompanhou ao longo de um tempo o vocabulário das postagens de pessoas que se mostravam depressivas. Percebeu-se que essas pessoas, ao irem para as redes sociais, buscavam mais a aprovação de alguém do que apenas postar coisas bonitas ou encontrar assuntos aleatórios. Isso mostra que elas buscavam um apoio nas redes que não foi encontrado. O que a gente percebe é que o celular, que deveria ser uma forma de nos conectar às pessoas, na verdade nos separa delas.

Qual é o impacto do selfie no modo como as pessoas enxergam seus corpos e no modo como elas se relacionam com o mundo?

A primeira maneira como ele impacta o mundo é promovendo uma sociedade narcísica. Todos nós estamos muito mais preocupados com a imagem, e não com o conteúdo. Isso provoca um verdadeiro esvaziamento do valor que as pessoas têm pelo que elas falam. Elas passam a ser valorizadas pelo que aparentam. O segundo ponto é que hoje em dia é menos importante ir a Paris do que fazer um selfie com a Torre Eiffel. Tenho uma cliente que foi fazer a primeira viagem dela à Europa e seu smartphone quebrou. Ela voltou com um profundo sentimento de que não havia aproveitado a viagem porque não conseguiu tirar um selfie. Fica a impressão de que a existência está muito mais conectada ao parecer do que ao ser.

Como é possível quebrar essa dinâmica e usar as redes sociais de uma forma mais saudável?

Enquanto psicanalista, não sou adepto da nostalgia em relação ao passado. Pelo contrário. A gente tem de entender que esse modo de conexão com o mundo veio para ficar. Então, porque veio para ficar, não adianta recusá-lo. Não adianta mais tentar pensar uma pedagogia sem tentar pensar em como usar os smartphones de uma boa maneira. Não adianta tentar proibir os smartphones nas salas de aula, porque isso não vai acontecer. Mas, do mesmo jeito como a gente ensina gramática às crianças, nós precisamos lhes ensinar a enxergar. De tanto ver, nós desaprendemos a enxergar. E, para enxergar, é preciso também ter uma gramática do olhar.

Fonte: epoca.globo.com



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