Neuroses modernas: fuja dessa cilada para a saúde | ANEP
A ANEP (Associação Nacional de Estudos Psicanalíticos) mantém Cursos de Formação e Especialização em Psicanálise e Psicoterapias Psicanalíticas e Saúde Mental em Sorocaba.
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Neuroses modernas: fuja dessa cilada para a saúde

Lorena Pin acorda às 3h da madrugada para pedalar. Chega a percorrer 315 km

Não largar o celular, fazer exercício sem parar, trabalhar à exaustão: como essas e outras situações afetam a nossa vida e a gente nem percebe.

Lorena acorda às 3h da madrugada para pedalar na praia. Clayton fica ansioso e entediado quando está sem internet. Douglas não consegue se desligar do emprego nem no final semana. O que eles têm em comum? Vivem na sociedade atual e assim, como eu e você, muitas vezes, estão na linha tênue entre o comportamento normal e o excessivo, que traz prejuízos ao corpo e à mente.

E entender essa diferença não é simples. Afinal, ter um estilo de vida saudável, praticar exercícios e cuidar da alimentação são recomendações de 10 entre 10 médicos para viver bem. Mas o que dizer quando a atividade física passa a ocupar boa parte do seu tempo? A educadora física Lorena Pin, 33, não consegue ficar um dia sem praticar esportes. “Quando não faço, fico estressada e me dá muita ansiedade. Parece que tem energia acumulada dentro de mim, eu chego a sentir dor no corpo. Sou ligada no 220 volts”, ri.

Lorena dedica boa parte do seu tempo aos exercícios. E não estamos falando do trabalho na academia, mas sim das horas de lazer. “Algumas vezes na semana acordo às 3h. Tem dia que estou morta de sono, mas penso: ‘Ninguém faz isso’. Caraca, essa sensação é muito gostosa. Também nado no meu horário de almoço e já pedalei por 12 horas, fui e voltei em Colatina. Todo mundo fala que eu sou muito viciada.”

O psicólogo Cristiano Nabuco, diz que existe realmente o risco da dependência. Embora, Lorena diga que o objetivo não é competir com os outros e nem ter o corpo perfeito, mas sentir o prazer que o esporte traz, a partir do momento que o comportamento passa a ser repetido, o cérebro logo aprende que aquilo traz satisfação. Com o passar do tempo, entende que há uma liberação de dopamina – neurotransmissor ligado à sensação de prazer – mais intensa do que o normal.

“Aí começa a desligar uma série de ‘disjuntores’ no cérebro e a pessoa precisa de doses maiores daquilo que traz prazer para ter a mesma sensação. Por exemplo: quem corria 5 km, vai correr 10 km e assim por diante. O indivíduo sai do padrão da normalidade e começa a flertar com o vício”, alerta Nabuco, que também coordena o Núcleo de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas da USP.

Clayton fica ansioso quando não está conectado à internet. "Levo o computador para todos os lugares"
Clayton fica ansioso quando não está conectado à internet. “Levo o computador para todos os lugares”

O psicólogo diz que a neurose acontece quando a pessoa vive em função do comportamento, que nos dias de hoje pode ser exercício, trabalho ou uso de celular. “Só essa ação traz bem-estar e elevação da autoestima. É o que chamamos de dependentes comportamentais.”

“Quando você é usuário de álcool e droga, tem o desgaste da bainha de mielina, que liga um neurônio ao outro no cérebro. O indivíduo que joga em excesso no computador, por exemplo, tem esse mesmo desgaste. Há uma semelhança no processo de dependência química e comportamental”, compara Nabuco.

Sinais

E como saber se está à beira do descontrole? O psicólogo cita um exemplo. “Você descobre um joguinho no celular e sempre brinca ao chegar em casa. Depois começa a achar tão legal que joga quando para no sinal de trânsito. Daí a dependência evolui e não consegue mais largar o celular até para ir ao banheiro.”

Outra maneira de perceber que a situação passou dos limites é observando o impacto na vida. “A pessoa perde horas de trabalho ou tem prejuízos sociais, financeiros e de várias ordens por conta desse comportamento compulsivo”, diz o psiquiatra Rodrigo Leite, coordenador dos ambulatórios do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

Trabalho

O gestor comercial Douglas Antônio, 37, se considera viciado em trabalho, mas não vê efeitos negativos na saúde. A única dificuldade dele é desligar a mente na folga. “Mesmo no fim de semana, se fico parado, começo a pensar no trabalho, porque lido com negócios diferentes.”

Quem também está o tempo todo ligado no 220 volts é o analista de sistemas Clayton da Silva, 35. Ele mistura o excesso de trabalho com o uso de tecnologia. Quem nunca? “Minha relação com a internet é essencial. Só paro de usar quando durmo e ainda deixo alguma atividade rodando no computador.”

O psiquiatra Rodrigo Leite adverte os dois: há problema sim em ser workaholic – gíria em inglês que significa alguém viciado em trabalho -, mesmo que a sociedade entenda o trabalhador compulsivo como profissional dedicado e veja com bons olhos. “É uma pessoa que pode render mais do que as outras e se beneficiar da situação. Mas também ter prejuízos, sem perceber. Fica menos tempo com os filhos e chega a enfrentar problemas no casamento. Em casos mais graves, há risco até de apresentar AVC e infarto.”

De acordo com o especialista, a solução para Lorena, Douglas, Clayton e todos nós é dar um tempo na parafernalha tecnológica, no trabalho, na malhação exagerada e separar momentos para caminhar ao ar livre, bater-papo com os amigos e viver em família. A psicoterapia é uma opção para tratar as causas da ansiedade e da depressão, que podem estar por trás desses comportamentos.

E como é muito difícil para a própria pessoa reconhecer que está exagerando, dê ouvidos a quem está próximo de você. Família, amigos e colegas de trabalho podem emitir o alerta.

Os tipos

Cibercondríaco

Se você é do tipo hipocondríaco, que acha que sofre de tudo o que lê, corre o risco de se tornar cibercondríaco: alguém que não espera um diagnóstico. Ele procura saber sobre a doença no Google, não vai ao médico.

Sleep texting

Sonâmbulo que responde mensagens e até faz compras pela internet dormindo.

Efeito do Google (Google effect)

Deixa o cérebro mais “preguiçoso”. Confiamos que iremos achar qualquer coisa na internet, então não retemos mais as informações.

Nomofobia

Entra em pânico ao perceber que o telefone vai ficar sem bateria, crédito ou sinal. Isso porque o homem moderno criou uma relação de dependência com o dito-cujo: seja para pagar contas, tirar uma foto ou até, quem diria, telefonar. O medo do nomofóbico ficar sem celular é expresso por um terror irracional.

Vigorexia

Ou dismorfia corporal. Estão nessa definição tanto as pessoas que fazem dezenas de cirurgias plásticas (a ponto de o paciente ficar deformado), como as Barbies e Kens humanos, quanto aquelas pessoas aficionadas por músculos que fazem uso de subterfúgios, como anabolizantes, para ficar fortonas. Malhadores desenfreados também entram nesse quesito.

Síndrome de burn out

O que é

Imagine que, após um longo dia de trabalho, seus neurônios resolvam cruzar os braços e dizer: “Chega, não aguentamos mais”. É quase isso que acontece na síndrome de burn out, nome utilizado pelos especialistas para denominar o esgotamento (físico ou mental), provocado, na grande maioria das vezes, por excesso ou más condições de trabalho.

Karoshi

Em japonês significa morte relacionada ao trabalho. As pessoas ficam trabalhando horas, dias e até semanas, têm um infarto ou AVC e morrem. Esse estado de ativação comportamental sobrecarrega a parte cardíaca.

Alternativas

É melhor trabalhar menos tempo, mas mais focado. Outra dica é a meditação. Um estudo de Harvard descobriu que ela aumenta a atividade do córtex pré-frontal esquerdo do cérebro, responsável pela concentração. Cinco minutos bastam. Se os seus neurônios estiverem organizando um motim, lembre-se de desligar alertas de Facebook e WhatsApp (você leva 10 minutos para voltar a se concentrar) e faça pausas de 10 minutos a cada duas horas.

Entenda mais

Dependências

Além do comportamento compulsivo, há incidência de depressão, ansiedade e outras dependências associadas a esses casos. Por exemplo: a pessoa é dependente de jogo e de álcool, ou de outras drogas e internet.

Abstinência

Como as dependências comportamental e química agem de forma parecida no cérebro, deixar de fazer a atividade que traz prazer pode causar crises de abstinência. Se a ativação na mente for mais leve, a pessoa pode ficar ansiosa, irritada e sentir que está faltando alguma coisa. Muito diferente da abstinência de álcool e droga, que tem sintomas físicos mais evidentes, às vezes, até necessita de ir para o hospital. Quanto mais você faz a atividade e depois para de fazer, mais aumenta a chance de ter esses sintomas.

Reféns

Os desenvolvedores de tecnologia sabem que quanto mais viciante for o estímulo, mais eles vão vender e ter público. É uma estratégia comercial. As pessoas estão reféns de estratégias de mercado que estimulam áreas de recompensa no cérebro. A dica é investir mais em momentos de convívio social e se desconectar de vez em quando.

Fonte: Gazeta Online



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